Doze luas

A escrita é a forma de expressão mais intensa. Você pode escrever sobre amor, medo, cotidiano, sonhos…, mas, o que eu quero compartilhar é uma lembrança que aconteceu cerca de um ano atrás.

Ela tem uma voz mansa, puxando o ‘R’ e arrastando o ‘S’, melódica e também um sorriso adorável no rosto. Posso afirmar que é uma senhora prendada, perfeccionista, muito admirada e querida.

Estávamos na pequena sala, comigo eram três adultos, também havia uma criança distraída com seu tablet, parecia nem estar ali de tão quieta. Não sei exatamente como o assunto foi parar na temática “depressão e suicídio”, porém lembro como se fosse ontem o que vem a seguir.

Uma declaração com um sorriso sutilmente sarcástico e uma voz ainda sim melódica e seus olhos apertados que ao decorrer da manifestação de seu ponto de vista me encaravam profundamente.

“Você sabe como os índios se matam? Quando eles se sentem um fardo e desejam se matar, eles simplesmente se matam. O índio se enforca, mais precisamente sentado com as pernas uma sob a outra e, com suas mãos aplicam força nos seus joelhos até tocarem o chão e sufocarem lentamente.

Então, eu não acredito em depressão e suicídio, nem gente que não conseguiu se matar e fica tomando remédios caríssimos e, sabe por quê? Porque quem quer se matar de verdade, morre. O resto é para chamar atenção. São covardes.”.

Se eu disser “é só uma lembrança” estarei mentindo profundamente porque é dolorido e decepcionante pensar nisto, que alguém que era para ser ‘família’ falava como se estivesse ensinando o processo de suicídio indígena. E, falava conscientemente para uma pessoa depressiva, sabendo exatamente de sua condição delicada, seus ‘remédios caríssimos’ para ansiedade, bipolaridade e depressão.

Passaram-se três coisas na minha cabeça quando cheguei em casa. A primeira, obviamente foi a prática do relato. Depois foi o estalo que minha consciência deu acerca da dissimulação no discurso. A terceira foi o artigo 122 do Código Penal Brasileiro “Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça”. Se eu me matasse, ela responderia pelo crime, por ter plantado a ideia de forma consciente. Se me desse a corda, seria partícipe. Se eu sofresse lesão gravíssima, responderia por lesão corporal gravíssima com aumento de pena baseada no parágrafo 9º. Se ela ajudasse, por fim, seria homicídio.

Sabe porque ela não acredita em suicídio e depressão? Porque nem ela, nem ninguém que amava passou por isso.

Bem, eu não morri. Porém, vou lembrar disto até o fim de minha existência, pois naquele dia uma parte minha morreu. E para quem não consegue se pôr no lugar do outro: “Caminhe três luas com seus sapatos”.

 

 

 

 

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Um pensamento sobre “Doze luas

  1. Apenas posso pensar que quem se viu nestas condições, precisou fazer uma escolha, dali em diante mudar de verdade ou se matar, mas permanecer covarde sem dúvida é muito pior, pois o ser está morto em vida.

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