Afinal, quando não estou presente?

    Lembro que foi há tempos, num natal, seis anos atrás, aqueles olhos verdes determinados e tão cobertos de tristeza que construíram muitas conquistas num monólogo solitário no teatro da vida, se fecharam, não para continuar sonhando, mas para o ato final. Nesse instante, pude vislumbrar algumas coisas, memórias. Sim! Muitas memórias! Lembranças nostálgicas de quem teve que lutar contra o mundo, muitas vezes o seu mundo, carregando-o como um fardo silencioso e melancólico que o transformava em um autoritário ríspido cheio de ambições.

    Este homem rigoroso tinha um irmão que o admirava muito e apesar de não ser tão severo quanto, reconhecia que sua determinação não chegava aos pés da daquele homem rigoroso. Eles discordavam em tudo, o irmão não compreendia o por quê daquele coração tão duro e o confrontava veementemente, coisas de irmãos?

    Muitas atos aconteceram dentro de seu teatro, dentre muitas coisas que fizeram a rigidez ceder lugar para o carinho, cuidado e a melancolia dos arrependimentos. Ah, sim! Em suas memórias também aparece-me um flash de 1990, onde sua determinação é testada perdendo parte de seus bens, maldito Collor… “Logo quando havia vendido várias coisas e poupado no Banco, vem o maldito Collor e sua maldita Medida Provisória!”, a outra parte se reduz a sua própria casa e uns dois lugares. Aquilo foi um banho de água gelada em sua força de vontade.

    Ainda nessa época começou a ficar mais em casa, junto a filha caçula, a primeira que realmente conviveu, participando da criação − E os outros? Ham? −, a exceção que criou um laço forte de afeto e cuidado. Com esses acontecimentos esse homem rigoroso já não o era tanto assim, foi sutilmente mudando, compensando o carrasco que foi para a maioria dos filhos, na figura de um pai autoritário, sendo um bom avô para os netos, tão carinhoso. Ah, em cada lembrança de como via os netos: cuidadoso e enchia-os de carinho e, quando tinha que chamar atenção, chamava mesmo…

    A vida, veio o enchendo de imprevistos, já não tão jovem cheio de vigor e força de vontade como antes, vieram as perturbações à sua saúde, o primeiro AVC e consequentemente sua mobilidade debilitada e limitada à uma rede. Mais lágrimas surgem naquele velho coração cheio de arrependimentos quando se vê cercado de seus filhos, sim, aqueles que não tiveram seu carinho ou tampouco atenção − Não tiveram a sorte da caçula! −, mas mesmo assim eles o cobriam de afeto, ajudando-o sempre que podiam.

    Agora neste último ato, aqueles olhos verdes frágeis já não rigorosos e autoritários, mas arrependidos, que choravam copiosamente ao relembrar cada cena, cada falha que poderia ser repensada em sua época, mas o orgulho não deixou… Ah, eu estava vendo-o chorar como quem perdeu alguma coisa importante ao decorrer da vida e talvez seja tarde demais para recuperar, (E não foi dinheiro, pois morreu bem mais rico do que ele mesmo poderia dizer, ou alguém reclamar!). Ali, encerramos o último ato do seu teatro, da cena trágica à última lágrima, o levo como se nos conhecêssemos a anos − Talvez sim, afinal, quando não estou presente? −, para algum lugar sem agonia, nem arrependimentos.

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4 pensamentos sobre “Afinal, quando não estou presente?

  1. Cê quer dizer perfil que nem um tópico “sobre o autor”?

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