Do teu coração para o meu

Diga-me que a ama
E sorria ao voltar para casa.

Mas não diga
Que seu coração está arrasado
Pela tristeza, pela dor,
Por um rolo que não rolou.

Diga-me que ela está em seus planos
E sorria ao contar-me seus sonhos ciganos.

Mas não diga
O quão desnorteado e desolado
Pela infelicidade, pela mágoa,
Seu coração está agora.

Eu consigo sentir seu sofrimento,
Ouvir seu soluço distante e abafado…
E machuca…
E machuca…
E machuca…

Eu não sei como isso aconteceu,
Eu gostaria que sua dor passasse inteiramente para meu coração
E teu sorriso permanecesse intocável,
Esta noite será sombria e o amanhã será pior.

Eu consigo sentir seu sofrimento,
E peço: do teu coração para o meu
Toda tua dor inteiramente para meu coração
E teu sorriso de volta,
Como nos dias que você dizia que a amava
E voltava sorrindo para casa.

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Perdidos na multidão

Ando pela multidão,
Sorrindo e me despindo do medo,
Buscando clareza para própria escuridão
Que habita o coração desde cedo.

É como um navio naufragando,
Você vive para contar a história,
Ou você morre afogando.
É como um jogo sem vitória,
Sem grandes hérois,
São pequenas escolhas somando.

Numa vida frágil e curta,
As pessoas se importam cada vez menos,
Num mundo cheio de dor e solidão,
Todos se perdem sozinhos numa multidão.

Ando pela multidão
Sorrindo e me despindo da ignorância,
Tentando achar o caminho
Para conhecer cada um e sua escuridão.

Doze luas

A escrita é a forma de expressão mais intensa. Você pode escrever sobre amor, medo, cotidiano, sonhos…, mas, o que eu quero compartilhar é uma lembrança que aconteceu cerca de um ano atrás.

Ela tem uma voz mansa, puxando o ‘R’ e arrastando o ‘S’, melódica e também um sorriso adorável no rosto. Posso afirmar que é uma senhora prendada, perfeccionista, muito admirada e querida.

Estávamos na pequena sala, comigo eram três adultos, também havia uma criança distraída com seu tablet, parecia nem estar ali de tão quieta. Não sei exatamente como o assunto foi parar na temática “depressão e suicídio”, porém lembro como se fosse ontem o que vem a seguir.

Uma declaração com um sorriso sutilmente sarcástico e uma voz ainda sim melódica e seus olhos apertados que ao decorrer da manifestação de seu ponto de vista me encaravam profundamente.

“Você sabe como os índios se matam? Quando eles se sentem um fardo e desejam se matar, eles simplesmente se matam. O índio se enforca, mais precisamente sentado com as pernas uma sob a outra e, com suas mãos aplicam força nos seus joelhos até tocarem o chão e sufocarem lentamente.

Então, eu não acredito em depressão e suicídio, nem gente que não conseguiu se matar e fica tomando remédios caríssimos e, sabe por quê? Porque quem quer se matar de verdade, morre. O resto é para chamar atenção. São covardes.”.

Se eu disser “é só uma lembrança” estarei mentindo profundamente porque é dolorido e decepcionante pensar nisto, que alguém que era para ser ‘família’ falava como se estivesse ensinando o processo de suicídio indígena. E, falava conscientemente para uma pessoa depressiva, sabendo exatamente de sua condição delicada, seus ‘remédios caríssimos’ para ansiedade, bipolaridade e depressão.

Passaram-se três coisas na minha cabeça quando cheguei em casa. A primeira, obviamente foi a prática do relato. Depois foi o estalo que minha consciência deu acerca da dissimulação no discurso. A terceira foi o artigo 122 do Código Penal Brasileiro “Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça”. Se eu me matasse, ela responderia pelo crime, por ter plantado a ideia de forma consciente. Se me desse a corda, seria partícipe. Se eu sofresse lesão gravíssima, responderia por lesão corporal gravíssima com aumento de pena baseada no parágrafo 9º. Se ela ajudasse, por fim, seria homicídio.

Sabe porque ela não acredita em suicídio e depressão? Porque nem ela, nem ninguém que amava passou por isso.

Bem, eu não morri. Porém, vou lembrar disto até o fim de minha existência, pois naquele dia uma parte minha morreu. E para quem não consegue se pôr no lugar do outro: “Caminhe três luas com seus sapatos”.

 

 

 

 

Oceano

Eu tento pintar o brilho das águas
De um oceano profundo,
Mas o que me cativa não está na superfície.

Eu tento me ligar às pessoas,
Mas tudo o que vejo são emoções superficiais
Escondendo seus pecados nada especiais.

E me perco.

Eu tento mergulhar, mas é tão raso.
Tento me interessar, mas é tão frívolo.

E me perco,
Eu quero me perder
E pintar o que está no fundo do oceano,
Um ‘pronfundo’ que me mantenha,
Um profano que eu queira toda madrugada,
Sem exageros e sem ‘vez em quando’
Um ‘profundo’ que me afogue em seu oceano.

Já não quer

Ela já não queria razão,
Nem compreensão,
Em meio de falsos sorrisos
Ela queria um sincero abraço.

Ela já não queria coragem,
Só queria não sentir medo.
Ela já não queria sonhar,
Só queria poder dormir cedo.

Ela já não queria o sentimento,
Só queria deixar de sentir
A montanha-russa em forma de solidão
Em meio de tantas pessoas.
Queria deixar de sobreviver,
De suportar,
Ela queria apenas sorrir e viver.

Estranho amor

Como você pôde me desarmar
Da minha companheira solidão
Com tua intensa paixão?

Como você pôde me encantar
E cantar ao pé do ouvido,
Cativando-me com teu olhar
De tons de folhas e mar.

Como você se atreve
A roubar meu coração e ir?
Como você se atreve
A me fazer te amar e ir? (Ir de volta para casa).

Como você pôde me beijar
E arrebatar todo meu chão
Com teu estranho amor e ir?

Um momento só nosso que eu quero eternizar,
(Um estranho amor que precisa ir…)
Uma saudade fiel que me faz chorar,
Um estranho amor que preciso deixar ir…